I SIMPÓSIO IDENTIDADES E LUTOS
Os efeitos do luto na identidade das pessoas, quando passam por
esse processo de perdas, foram discutidos durante o Primeiro Simpósio os
Lutos e as Identidades, realizado pela ABM – Associação Brasileira
Multiprofissional Sobre o Luto.
O encontro aconteceu no dia 28/02/2026 – on line e de forma
sincrona, para todo o país – e contou com a presença de especialistas que
falaram sobre o tema, dividido em três mesas:
LUTO, DEFICIÊNCIA E REABILITAÇÃO.
MEDIAÇÃO: ANA CLARA BASTOS
DEBATEDORES:
Sandra Schewinsky CRP 06/29896 “Esse não sou EU! Quero minha vida
de volta”.
Synara Novais CREFITO-15 14528 TO “Terapia Ocupacional e os
Múltiplos lutos: navegando identidades em transformação”.
O LUTO ATRAVESSADO POR QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS.
MEDIAÇÃO: MARIA CAROLINA ANDERY
DEBATEDORES:
Fernanda Vericimo CRP 02/18636 “Novos Tumbeiros: uma perspectiva
sobre o luto e a população negra no Brasil”.
Bruno Oliveira “Lutos invisíveis, corpos visíveis: espiritualidade, raça e a
experiência de perder”.
O LUTO ATRAVESSADO POR QUESTÕES DE SEXUALIDADE E
GÊNERO.
MEDIAÇÃO: LUCAS NAMUR
DEBATEDORES:
Éder Rodrigo Gimenes “Diversidade e cidadania no acrônimo
LBGTQIAPN+”
Jose Grigoleto Netto CRP 08/24556 “Luto em homens gays”
LUTO E IDENTIDADE
O luto é o processo psicológico, emocional e até físico que uma
pessoa atravessa quando enfrenta uma perda significativa.
Na maioria das vezes está associado à morte de alguém, mas também
pode ocorrer após outros tipos de perda — como o fim de um
relacionamento, a perda de um emprego, de uma casa, de um projeto de
vida ou no adoecimento.
Em termos da psicologia, o luto é considerado um processo natural
de adaptação à ausência.
A relação entre luto e identidade é um tema importante na
psicologia contemporânea. O luto não envolve apenas a perda de alguém
ou de algo significativo; ele também provoca mudanças profundas na
forma como a pessoa se percebe e se posiciona no mundo.
O luto como ruptura da identidade
Identidade é o conjunto de características que tornam uma pessoa
única e reconhecível. A identidade envolve tanto os aspectos objetivos que
nos identificam, como nome e documentos, quanto às dimensões
subjetivas, como sentimentos de pertencimento, crenças, valores e
comportamentos.
Quando ocorre uma perda significativa, parte da identidade da pessoa
pode ser afetada. Isso acontece porque nossa identidade é construída
também a partir das relações que mantemos.
Por exemplo:
alguém que perde o cônjuge deixa de ocupar o papel cotidiano de marido
ou esposa;
uma mãe que perde um filho vê abalado um aspecto central de sua
identidade;
uma pessoa que perde o emprego pode sentir que perdeu também o papel
social que estruturava sua vida.
Assim, o luto frequentemente envolve a pergunta implícita:
“Quem sou eu agora sem aquilo ou sem aquela pessoa?” A psicologia
atual entende o luto menos como “superar a perda” e mais
como reorganizar a própria vida e identidade após ela. Ou seja, a
pessoa precisa reaprender a viver e redefinir seu papel no mundo.
Tema sensível e necessário
A Dra. Sandra Schewinsky é Neuropsicóloga, Doutora em Psicologia
Social pela PUC – Pontifícia Universidade Católica; Mestra em Psicologia
do Desenvolvimento pela Universidade São Marcos e Especialista em
Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia. Ela é autora do
livro Lesão Encefálica Adquirida, escrito em parceria com a Dra. Vera
Lucia Rodrigues Alves, entre outros.
O tema da exposição da Dra. Sandra Schewinsky foi Esse não sou
EU! Quero minha vida de volta. Ela explica que o título tem a ver com
os lutos e papéis que a pessoa perdeu ao longo da sua existência. “A
identidade de cada um não é algo imutável, vai mudando ao longo da vida,
passando por metamorfoses”, afirma.
Segundo a neuropsicóloga, o luto não é simplesmente a perda de uma
pessoa: há vários tipos de luto ocasionados por diversos fatores, como a
aposentadoria, demissão de um emprego, fim de um
relacionamento, despatriação, perda da juventude, do vigor físico e da
beleza e muitos outros.
Há também os lutos causados por acidentes e doenças, nos quais a
pessoa passa por questionamentos profundos. Há o luto antecipatório
devido a uma doença (mortal) terminal. E ainda o luto invisível, não
legitimado pelos outros, que a pessoa guarda para si
“Todo luto implica dor e sofrimento, mas é importante que todos
saibam que há tratamento, pois a ferida pode ser curada. É um tema
altamente sensível, mas extremamente necessário de ser trabalhado”,
assegura a especialista.
A vida de volta
A Dra. Sandra Schewinsky atua na área de deficiência e reabilitação,
e por isso tem vasta experiência com pacientes que perderam sua
identidade devido a doenças e acidentes traumáticos. “A deficiência é
sempre uma ruptura do caminho da vida da pessoa, algo que acontece
abruptamente e exige uma readaptação à nova condição”, ensina.
Ela cita como exemplo o caso de um paciente com sequelas da
Covid, que, depois de um ano afastado do emprego, não encontrou mais
sua mesa e o seu lugar na empresa em que trabalhava. Sua identidade
havia sido completamente apagada, pois não esperavam sua volta. O
funcionário teve de passar por todo um processo de reintegração, pois
estava voltando com uma nova identidade.
Há também a quebra da expectativa dos pais, quando uma criança
nasce com deficiência. “Todas as expectativas e possibilidades sonhadas e
criadas pelos pais morrem, e eles precisam aprender a olhar a criança sob
uma nova perspectiva”.
Outro exemplo é quando o paciente perde parte da memória por
doença ou trauma: sua identidade muda, pois com a descontinuidade das
lembranças surgem perguntas como: quem sou eu, onde foram parar
minhas lembranças, será sempre assim ou vou recuperar parte delas? A
sensação de intimidade consigo mesmo é perdida.
Dúvidas e questionamentos
Em sua exposição, a Dra. Sandra Schewinsky exibiu um slide com
dúvidas e perguntas de alguns pacientes com deficiência física e/ou
cognitiva.
Estes são alguns exemplos:
Eu nunca mais vou andar?
Nunca mais vou poder fazer um carinho na minha esposa?
Meu filho vai depender de mim para sempre?
Todos os amigos me abandonaram.
O médico só fala com a minha mãe, parece que nem existo.
Vou piorar até morrer?
Perdi tudo: meu corpo, trabalho, amigos e esposa e não tenho mais
dinheiro para comprar meus remédios.
Essas frases são exemplos de pacientes enlutados com profunda
perda da identidade. Luto pela imprevisibilidade do futuro, pela perda da
privacidade, pela perda da autonomia, por não poder tomar decisões, pela
impossibilidade de vida sexual ou amorosa, e outros. Na verdade, pode
haver um colapso total da identidade.
Reabilitação e cura
Por mais dolorido que seja o processo de luto, sempre há uma
esperança, uma luz no fim do túnel, pois há tratamento que conduz a uma
grande melhora. O paciente enlutado pode, com o tempo, vencer o luto
e construir uma nova identidade.
Segundo a Dra. Sandra Schewinsky, quando a pessoa compreende
sua atual realidade e passa a usar novos recursos, junto com a terapia, pode
sentir-se viva novamente: o terapeuta a devolve para a vida.
Há todo um trabalho com técnicas específicas para lidar com o luto,
pois isso é uma especialização na área da psicologia. O importante é
procurar ajuda com profissionais especializados e estar disposta a viver
uma nova realidade, já que a vida nos traz constantes desafios.
TERAPIA OCUPACIONAL E OS MÚLTIPLOS LUTOS:
NAVEGANDO IDENTIDADES EM TRANSFORMAÇÃO.
A Terapia Ocupacional (TO) é uma profissão da área da saúde que
tem como objetivo promover autonomia, funcionalidade e participação
nas atividades da vida diária, por meio do uso terapêutico de ocupações
significativas para a pessoa.
Em relação ao processo de luto, a terapia ocupacional atua no sentido
de dar à pessoa enlutada os recursos para retomar suas atividades, além de
retornar à rotina e voltar a ocupar seu lugar no mundo.
Uma única situação pode provocar vários tipos de luto ao mesmo
tempo: perda de uma pessoa amada; perda de um papel social (ser marido,
mãe, cuidador, trabalhador); perda de autonomia física ou mental; perda de
identidade cultural ou comunitária; perda de projetos de vida. Assim, o
indivíduo precisa reorganizar sua identidade enquanto continua
vivendo.
A terapia ocupacional trabalha com a ideia de que a identidade
humana é construída pelas ocupações, ou seja, pelas atividades
significativas que realizamos: trabalhar, estudar, cuidar de alguém, criar
arte, praticar esportes, participar da comunidade. Quando ocorre um luto,
essas ocupações podem ser profundamente afetadas.
Por isso, a terapia ocupacional ajuda a pessoa a reconstruir
rotinas, redescobrir atividades com sentido, organizar papéis sociais e criar
novas formas de participação na vida.
Navegar identidades em transformação significa aprender a viver
com perdas enquanto se constrói uma nova forma de existir no mundo. A
terapia ocupacional atua exatamente nesse ponto: reconectar a pessoa
com atividades, papéis e sentidos que permitam reconstruir sua
identidade após o luto.
Nesses contextos, o terapeuta ocupacional ajuda a pessoa
a continuar participando da vida, mesmo quando ela mudou
profundamente.
Em sua participação no Primeiro Simpósio os Lutos e as Identidades,
a terapeuta ocupacional Synara Novais trouxe sua experiência contando
como lida com os pacientes jovens que sofrem lesão medular e tudo o que
eles precisam para fazer adaptações e continuar com a vida prática.
Synara Novaes enriqueceu o simpósio tratando um tema difícil num
bate-papo prazeroso que chegou ao coração de todos.





