26 de março de 2026

OS EFEITOS DO LUTO NA IDENTIDADE DE PESSOAS NEGRAS E LGBTQIA+

Luto na população negra e LGBTQIA+: dor que vai além da perda física, marcada por racismo e LGBTQIAfobia.
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Milton Correia Junior – Jornalista especializado em empreendedorismo.

Os efeitos do luto na identidade das pessoas, quando passam por esse processo de perdas, estiveram sendo discutidos durante o Primeiro Simpósio os Lutos e as Identidades, realizado pela ABM – Associação Brasileira Multiprofissional Sobre o Luto.
O encontro aconteceu em São Paulo, no dia 28/02/2026, e contou com a presença de especialistas. No programa, duas mesas abordaram temas es-pecíficos sobre luto, identidade, negritude e pessoas Lgbtqia+ .
O LUTO ATRAVESSADO POR QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS.
A cargo de:
Fernanda Vericimo CRP 02/18636 “Novos Tumbeiros: uma perspectiva so-bre o luto e a população negra no Brasil”.
Bruno Oliveira “Lutos invisíveis, corpos visíveis: espiritualidade, raça e a experiência de perder”.
O LUTO ATRAVESSADO POR QUESTÕES DE SEXUALIDADE E GÊNERO.
A cargo de:
Éder Rodrigo Gimenes “Diversidade e cidadania no acrônimo LBGTQI-APN+”
Jose Grigoleto Netto CRP 08/24556 “Luto em homens gays”

LUTO E IDENTIDADE
O luto é o processo psicológico, emocional e até físico que uma pes-soa atravessa quando enfrenta uma perda significativa.
Em termos da psicologia, o luto é considerado um processo natural de adaptação à ausência.

A relação entre luto e identidade é um tema importante na psicologia contemporânea. O luto não envolve apenas a perda de alguém ou de algo significativo; ele também provoca mudanças profundas na forma como a pessoa se percebe e se posiciona no mundo.

Identidade é o conjunto de características que tornam uma pessoa única e reconhecível. A identidade envolve tanto os aspectos objetivos que nos identificam, como nome e documentos, quanto as dimensões subjetivas, como sentimentos de pertencimento, crenças, valores e comportamentos.

LUTO, IDENTIDADE E AS PESSOAS NEGRAS NO BRASIL
O luto para o homem negro no Brasil é marcado pelo racismo estrutu-ral, tornando-se um “luto não reconhecido” ou banalizado pela exposição constante à perda. A vivência envolve a dor da perda, a necessidade de resis-tência e a luta contra a desumanização, exigindo estratégias como o apoio coletivo para a saúde mental.

Pontos-chave sobre o luto e o homem negro:

Luto Coletivo e Estrutural – O luto não é apenas individual, mas um refle-xo do racismo que mata e apaga corpos negros, exigindo ações coletivas de resistência.
A “Dor Invisibilizada”: Frequentemente, a dor do homem negro não é acolhida ou reconhecida socialmente, sendo tratada com indiferença devido à naturalização da violência contra essa população.
Necessidade de Empretecer o Luto: Acolher e validar o luto da população negra é fundamental, reconhecendo o racismo como uma causa de sofrimen-to.
Resistência e Saúde Mental: A construção de redes de apoio (“quilom-bos”) e o cuidado mútuo são essenciais para lidar com as perdas e preservar a saúde mental.
Representação na Mídia: Séries como Alex Cross abordam o impacto do racismo estrutural, do luto e das cicatrizes pessoais na vida de um homem negro.
A questão da identidade
Em sociedades majoritariamente brancas, muitas vezes existe um modelo cultural dominante que define o que é considerado belo, inteligente, civili-zado e desejável.
Historicamente, esse modelo foi associado à branquitude. Isso pode provo-car nas pessoas negras conflitos identitários como: pressão para assimilar padrões culturais brancos; desvalorização de traços físicos negros (ca-belo, pele); estigmatização de práticas culturais afrodescendentes, como as religiões de matrizes africanas.
O resultado pode ser uma sensação de deslocamento identitário:
a pessoa não se sente plenamente reconhecida nem pela cultura dominante nem, às vezes, pela própria história que lhe foi negada.
O luto pela identidade negada
Isso acontece quando a pessoa percebe que sua história foi apagada ou distorcida; suas referências culturais foram desvalorizadas; sua humanidade foi questionada socialmente.
Esse processo pode gerar sentimentos como: alienação, vergonha internali-zada e fragmentação da identidade. E tudo isso pode afetar a formação da autoimagem e autoestima.
Críticas ao corpo negro e feridas psicológicas
Comentários negativos sobre características físicas negras — como cabelo crespo, cor da pele ou cheiro do corpo — não são apenas ofensas isoladas. Eles fazem parte de um sistema simbólico maior.
Essas críticas podem atingir aspectos profundamente ligados à identidade: Cabelo – Durante muito tempo, o cabelo crespo foi tratado como “ruim”, “desarrumado” ou “não profissional”. Isso levou muitas pessoas negras a: alisar o cabelo; esconder o cabelo natural; sentir vergonha da própria apa-rência;
Corpo e odor – Estereótipos racistas frequentemente atribuíram ao corpo negro ideias de: sujeira; animalidade; excesso físico. Essas narrativas foram historicamente usadas para justificar desigualdade.
Alguns estereótipos e preconceitos persistem até hoje, conforme foi aborda-do durante o simpósio: pessoas praticantes de religiões de matriz africana são impedidas de praticar rituais em hospitais onde estão internados pacien-tes negros.
Enfermeiros também são orientados por alguns médicos a aplicar doses me-nores de analgésicos em pacientes negros, pois, no entender desses profissi-onais, “os negros são mais resistentes à dor”.


Comportamento e cultura
Práticas culturais negras (religião, música, linguagem, costumes) também foram ridicularizadas ou consideradas inferiores.
O processo psicológico de perda simbólica
Quando uma pessoa cresce ouvindo que aspectos centrais de sua identidade são inferiores, ela pode experimentar algo próximo a um luto simbólico. Es-se luto pode envolver: perda da autoestima; vergonha da própria origem; tentativa de afastamento da própria cultura; desejo de parecer com o grupo dominante. Em alguns casos, a pessoa tenta se distanciar de tudo que lembre sua identidade racial, como estratégia de adaptação social.
Racismo cotidiano e microperdas
Além das grandes perdas históricas, existe o que alguns estudiosos chamam de microperdas diárias associadas ao racismo cotidiano: suspeita cons-tante; comentários racistas ou estereotipados; invisibilidade em espaços de poder; necessidade constante de provar competência;
Essas experiências repetidas podem gerar uma forma de luto contínuo, porque cada episódio reafirma a perda de reconhecimento pleno como sujeito.
Reconstrução da identidade
Negros desenvolveram estratégias de reconstrução identitária. Exemplos in-cluem: valorização da estética negra; recuperação de histórias africanas e afro-brasileiras; movimentos culturais e artísticos negros; produção intelectu-al sobre identidade negra.
Esses processos ajudam a transformar o luto em memória, resistência e afirmação.
Em vez de permanecer apenas como dor, o luto pode se tornar um motor de reconstrução identitária coletiva.

O LUTO ATRAVESSADO POR QUESTÕES DE SEXUALIDADE E GÊNERO.

Nesse contexto, o luto não se refere apenas à morte de alguém, mas também a perdas simbólicas, afetivas e sociais que ocorrem ao longo da vida de pessoas LGBTQIA+.

No caso específico do homem gay, muitos pesquisadores observam que sua trajetória pode envolver uma sequência de experiências de perda que afetam profundamente a construção da identidade.

O conceito de “luto não reconhecido” – Um conceito importante é o de luto não reconhecido, que descreve situações em que a sociedade não re-conhece legitimamente a dor ou a perda de alguém.

Isso pode acontecer com homens gays em situações como: morte de um parceiro que a família não reconhecia; perda de vínculos familiares após as-sumir a sexualidade; término de relacionamentos que não eram socialmente aceitos; exclusão de rituais sociais ligados à vida afetiva.

Quando o luto não é reconhecido socialmente, ele pode se tornar mais silencioso e mais doloroso.

O primeiro luto: a descoberta da própria sexualidade

Para muitos homens gays, o primeiro grande conflito surge durante a adolescência ou juventude.

Em uma sociedade majoritariamente heterossexual, a pessoa cresce cercada por expectativas como: casar com uma mulher; formar família tradicional; seguir modelos de masculinidade heterossexual.

Quando o jovem percebe que sua orientação é diferente dessas expectativas, pode ocorrer um processo psicológico de luto que envolve: perda da identidade esperada pela família; perda de pertencimento social; medo de rejeição.

Esse momento pode gerar sentimentos como: culpa, vergonha, solidão e ansiedade.

A perda da aceitação familiar

Um dos momentos mais dolorosos ocorre quando a revelação da sexualidade gera rejeição familiar.

Alguns homens gays relatam experiências como: afastamento de familiares, expulsão de casa, silêncio ou negação da identidade, tentativa de “corrigir” a orientação sexual.

Nesse contexto, ocorre um luto pela família idealizada — aquela que de-veria oferecer proteção e aceitação.

O luto pela masculinidade imposta

A sociedade costuma associar masculinidade a padrões heterossexuais rígi-dos.

Homens gays frequentemente enfrentam críticas ou ridicularização por: comportamento considerado “não masculino”; expressão emocional; forma de falar ou se vestir.

Esse processo pode levar a uma experiência de perda ligada à identidade masculina.

Alguns homens gays passam por fases como: tentativa de esconder a sexua-lidade; hiperconformidade a padrões masculinos; fragmentação da identida-de.

A pessoa sente que precisa dividir ou esconder partes de si para sobrevi-ver socialmente.

Reconstrução da identidade

Apesar dessas perdas, muitos homens gays passam por processos importantes de reconstrução identitária.
Esses processos podem incluir: criação de comunidades de apoio; constru-ção de “famílias escolhidas”; afirmação pública da identidade; produção cul-tural e política.
A identidade gay, nesse sentido, pode emergir não apenas da dor, mas tam-bém de processos de resistência e criação de novos espaços de pertenci-mento.

Pessoas transexuais e identidade

Para muitas pessoas trans, a percepção de que sua identidade de gênero não corresponde ao sexo atribuído no nascimento surge ainda na infância ou adolescência.

Esse momento pode provocar um forte conflito interno e ocorrer um luto pela vida que se é obrigado a viver, diferente da identidade sentida internamente.

O luto vivido pelos familiares

Pais e familiares frequentemente passam por um processo emocional com-plexo quando um filho revela uma identidade de gênero diferente da espera-da.

Alguns psicólogos descrevem isso como luto pelas expectativas projeta-das.

Muitos pais criam, ao longo dos anos, uma imagem imaginada do futuro do filho: como ele ou ela viverá; que tipo de relações terá; quais papéis sociais desempenhará.

Quando ocorre a transição de gênero, essas expectativas podem ser profun-damente transformadas. Alguns pais relatam sentimentos como: confusão; medo pelo futuro do filho; sensação de perda da identidade anterior; preocu-pação com preconceito social.

O conceito de luto ambíguo

Uma ideia útil para entender essa experiência é o conceito de luto ambíguo, que ocorre quando a pessoa amada continua presente fisicamente, mas algo importante na relação parece ter mudado.

No caso de famílias com filhos trans, alguns pais descrevem a sensação de “perder” o filho ou filha que imaginavam, ao mesmo tempo em que preci-sam conhecer novamente quem aquela pessoa realmente é. Esse processo pode exigir uma reorganização emocional e relacional.

Identidade e autenticidade

Para muitas pessoas trans, a transição não é vivida como perda, mas como recuperação da própria identidade.

Em vez de “morrer” uma pessoa, muitos descrevem a experiência como: abandonar uma identidade imposta e finalmente viver de forma autêntica.

Isso não significa que o processo seja fácil, mas indica que a narrativa de “perda” pode variar muito entre diferentes famílias e indivíduos.

Luto simbólico

No contexto da transexualidade, o luto aparece principalmente como luto simbólico ligado à transformação de expectativas e identidades. A pessoa trans pode viver o luto por anos de vida em que precisou esconder quem era, enquanto familiares podem experimentar o luto pela imagem do filho ou fi-lha que haviam imaginado. Com o tempo e apoio adequado, muitas famílias conseguem reconstruir relações baseadas na aceitação da identidade real da pessoa.