24 de março de 2022

EXPOSIÇÃO QUILOMBO CEARENSE REÚNE OBRAS DE ARTISTAS NÃO-BRANCOS NO MAC DE FORTALEZA.

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O objetivo da mostra é lançar luz sobre o processo de construção da memória artística de artistas não-brancos que compõem o acervo do Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC Dragão).

Desde o dia 22 de dezembro passado está acontecendo a exposição Quilombo Cearense, no MAC de Fortaleza. A mostra tem curadoria de Guilherme Marcondes, professor e pós- doutorando do PPGA/UECE (programa de pós-graduação da Universidade Estadual do Ceará) e conta com a assistência técnica de Maíra Abreu e Hailla Krulicoski.

A exposição Quilombo Cearense reúne obras do acervo do MAC Dragão do Mar e de artistas convidados, ocupando os pisos inferior e superior do Museu. São estes os artistas não-brancos cuja obra foi selecionada: Maíra Ortins, Francisco Bandeira, Linga Acácio, Felipe Barbosa, Siegbert Franklin, Jarvis Quintero, Manfredo Souzanetto, Caetano Dias, Efrain Almeida, Herbert Rolim, Simone Barreto, Diego de Santos, Tomie Ohtake, Bosco Lisboa, Thiago Martins de Melo, José Carlos Viana, Marcelo Gandhi, Francisco de Almeida e Rafael Limaverde.

O evento conta também com obras do acervo da Secut Ceará (Secretaria de Cultura local), dos autores Antônio Bandeira, Aldemir Martins, Chico da Silva e Raimundo Cela. Há, ainda, a presença das artistas convidadas Maria Macêdo, Maria Cecília Felix Calaça e do grupo Terroristas del Amor. O total reúne mais de 50 obras, entre séries e individuais, pinturas, instalações, esculturas, desenhos, gravuras, aquarelas e outros.

Papel da racialidade

A exposição Quilombo Cearense é fruto de todo um trabalho do professor Guilherme Marcondes, que desde 2018, na sua pesquisa de pós-doutorado, vem investigando qual é o papel da racialidade e do gênero no processo de legitimação de artistas negros na arte contemporânea.

A partir de 2019, Marcondes conseguiu desdobrar a pesquisa num projeto de iniciação científica do qual participam bolsistas que, sob sua orientação, estão investigando os acervos de dois museus do Ceará – o MAC Dragão do Mar e o Museu de Cultura Cearense – com o objetivo de descobrir como essas instituições estão preservando a memória e o que dizem os artistas que estão tendo sua memória preservada.

Nesse processo, o curador passou a analisar a presença de pessoas não-brancas no acervo do MAC Dragão. Marcondes parte do princípio de que os museus são locais com a função primordial de preservar a memória. Por isso, defende a iniciativa de se investigar qual a memória que vem sendo preservada: quais os critérios de seleção dos artistas e das obras, de quem é essa memória e como está sendo apresentada.

Até o momento, a pesquisa revelou que entre os artistas com as obras preservadas nos acervos dos museus cearenses é maior a presença de homens brancos. “As instituições reproduzem os padrões da sociedade envolvente contemporânea, cunhada e criada a partir de uma sociedade colonial, com toda a sua estrutura, valores e preconceitos que vão se mantendo ainda hoje”, afirma Guilherme Marcondes.

Ele explica que, na fase de preparação da exposição Quilombo Cearense, aplicaram um questionário e conseguiram respostas de 57 artistas dentre os mais de 200 cujas obras estão no acervo do MAC Fortaleza. “Era importante conseguirmos a auto-declaração desses artistas que se declaravam não-brancos, para a partir disso montarmos a exposição Quilombo Cearense, que tem uma relação direta com a pesquisa de iniciação científica que venho coordenando”, detalha.

A partir do levantamento baseado na autodeclaração dos artistas e nas informações coletadas em bancos de dados como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional — no caso de criadores já falecidos — o pesquisador definiu um recorte de 27 artistas autodeclarados não-brancos, indígenas, afro-indígenas e orientais.

“A exposição Quilombo Cearense convida o público a debater acerca da representação e da representatividade da população negra, indígena e não-branca nas historiografias da arte cearense e nacional, visando substituir a constante invisibilidade a que pessoas negras, indígenas e não-brancas são relegadas na estrutura social brasileira”, afirma Marcondes.

Presença feminina

Assim como a menor presença da obra de artistas não-brancos no acervo do MAC de Fortaleza, há também uma participação reduzida de mulheres, e isso, no entender de Marcondes, também está ligado ao nosso passado colonialista: “algumas pesquisadoras, como a Ana Paula  vêm trabalhando a questão do gênero no campo da arte, mostrando que historicamente, as mulheres tiveram menos legitimação, sendo muitas vezes catalogadas como artistas amadoras e não como artistas legitimadas”.

“Embora o campo da arte seja entendido como uma esfera social de liberdade, é feito por pessoas criadas no guarda-chuva colonial que é racista, classista e machista, reproduzindo valores conectados a esses conceitos. Por isso temos menos artistas negros e mulheres legitimados em termos históricos”, assegura Marcondes.

Uma das artistas convidadas para a exposição Quilombo Cearense é Maria Cecília Félix Calaça, professora que vem desempenhando a função de artista visual desde 2019, quando realizou sua primeira exposição oficial no grupo Meio-Fio de Pesquisa e Ação. Nesse grupo existem diferentes linhas de pesquisa e a professora Maria Cecília coordena a linha sobre Africanidade Brasileira.

Em 2018, a artista participou da exposição Terraplenagem, pelo grupo Meio-fio de Pesquisa e Ação. No ano seguinte, 2019, participou do 70 Salão de abril com a obra Afrotravessia , a instalação Terra-mãe e a performance Ago. Em 2002, está expondo no MAC de Fortaleza a instalação Xire de Cura.

“Sou professora acadêmica por formação, mas consegui realizar o sonho juvenil  de ser artista visual, sendo que estou desenvolvendo este meu lado artístico desde 2018, quando participei da minha primeira  exposição oficial. Desde então tudo vem acontecendo de maneira tranquila e tenho tido a oportunidade de participar de várias exposições aqui em Fortaleza”, explica Maria Cecília.

  Reação do público

A exposição Quilombo Cearense conta com a assistência técnica de Hailla Krulicoski, membro integrante da equipe do Núcleo Educativo do Mac Fortaleza. Hailla faz parte, como bolsista, do grupo de estudantes que participam do  projeto de iniciação científica sob a orientação do professor Guilherme Marcondes. Eles estão investigando qual é o papel da racialidade e do gênero no processo de legitimação de artistas negros na arte contemporânea.

“Os visitantes ficam atentos quando usamos a expressão não-branco, pois não estão acostumados a participar de exposições com artistas racializados dessa forma”, explica Hailla. Segundo ela, a partir daí as pessoas desenvolvem outro olhar sobre a exposição e isso se traduz em elogios à iniciativa e ao trabalho dos artistas, sendo que tudo está documentado no caderno de registros, com comentários feitos pelos visitantes”, explica Hailla.

De acordo com Cecília Bedê, gestora do MAC Dragão, o projeto destaca a relevância de um diálogo mais estreito entre o Museu, a comunidade acadêmica e a sociedade. O resultado dessa combinação é um potente recorte artístico que cumpre o papel de sensibilizar os visitantes do Museu para questões sociais.

Serviço

A exposição permanecerá em cartaz até março de 2022, podendo ser visitada de quarta a domingo, das 9h30 às 12h30 (acesso até as 12h) e das 14h30 às 17h30 (acesso até as 17h). A visitação à mostra é gratuita, mediante apresentação do passaporte sanitário que comprova o ciclo vacinal completo do portador há pelo menos 15 dias, acompanhado do documento de identificação com foto. O uso de máscara também é obrigatório, conforme protocolos alinhados às orientações do Governo do Ceará por meio do decreto estadual vigente.

Foto de Luiz Alves, fotógrafo do CDMAC

O curador Guilherme Marcondes ao lado da obra de Antônio Bandeira

 

Ao centro Guilherme Marcondes e à esquerda Maíra Abreu e à direita Hailla Krulicoski, assistentes técnicas da exposição Quilombo Cearense

 

A artista Maria Cecília Calaça na instalação: “Xire de Cura” conversando com o público sobre sua obra.