2 de abril de 2025

Fumar é um prazer, e não encham o saco! – Por Mouzar Benedito

magem Ilustrativa. Créditos: Divulgação/Banco Mundial/ONU
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Publicado na Fórum 01/04/2025

reprodução autorizada pelo autor

Uma pessoa que se julga polícia do comportamento de todo mundo determina que não pode isso ou não pode aquilo, e vira lei.

Nestes tempos de “cancelamentos”, em que muitas vezes fico do lado dos cancelados e não dos canceladores, ando irritado com algumas proibições. Uma pessoa que se julga polícia do comportamento de todo mundo determina que não pode isso ou não pode aquilo, e vira lei que, se pudessem fazer valer, teria como consequência a pena de morte. Mas como não podem punir os “infratores” com a morte física, tentam punir com a morte social. Uns pentelhos. Muitas vezes imbecis.

Começo este artigo me lembrando de um dia em que perdi a paciência com um militante antitabagista muito chato e falei: “Um fumante incomoda muita gente, um antitabagista incomoda muito mais”. Ele não estava se referindo a mim como fumante. Fui, mas parei há décadas porque sentia que me fazia mal, mas não me sinto no direito de exigir que os outros parem. Ele queria que eu virasse militante também. Jamais! Por essa causa, não, nunca!

Lembrei de uns antitabagistas gringos que uma época reivindicavam que se retirasse de todos os filmes cenas em que houvesse pessoa fumando. Já pensaram? Já imaginaram como ficaria o filme “Casablanca”, um clássico maravilhoso? Sobraria talvez uns dez minutos de filme. E sem sentido nenhum.

E me lembrei que minha turma de jovens, eu inclusive, éramos tímidos e, quando tentávamos paquerar alguma menina, ficávamos meio sem saber o que falar e o que fazer com as mãos. A solução vinha de um ditado: “Se não souber o que fazer com as mãos, pegue um cigarro…”.

Já partindo pra gozações lembrei ao chato: a gente ouve sempre história de cara que resolveu largar a mulher, e como fez isso? Saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou. E quem não fuma? Comentei isso com uma amiga uma vez e ela contou que conheceu um casal que vivia brigando, um dia o homem – não fumante – saiu pra comprar Coca-Cola e não voltou. Ou melhor, corrigiu: “Voltou cinco anos depois… sem a Coca-Cola”.

Bom… Pensemos no cancelamento de músicas por causa da referência a cigarros, ao hábito de fumar. Umas belíssimas teriam que ser canceladas. Começo pelo tango “Fumando espero”, que começa assim: “Fumar é um prazer, genial, sensual… Fumando espero aquela que mais quero…”.

E quem não se lembra da música “Lama”, antiga, mas fez sucesso até muitos anos depois, na voz de Maria Bethânia: “Se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo. Não interessa a mais ninguém…”.

E o clássico “No Rancho Fundo?”. Lembremos: “… Pobre moreno que de noite no sereno, espera a lua no terreiro, tendo o cigarro por companheiro…”.

Nora Ney, ignorada nestes tempos de sertanejo universitário, cantava “De cigarro em cigarro”, com sua voz rouca: “Outra noite esperei, outra noite sem fim, aumentou meu sofrer. De cigarro em cigarro, olhando a fumaça no ar se perder…”.

Um clássico cantado por Luiz Gonzaga, “Meu cigarro de palha” teria cancelamento exigido também: “Meu cigarro de palha, meu cavalo ligeiro, minha rede de malha, meu cachorro trigueiro (…). Acendo um cigarro vez em quando pra me esquecer de me alembrar que só me falta uma bonita morena, pra mais nada me faltar”.

Zeca Baleiro também tem uma música chamada “Cigarro”, em que canta: “A solidão é meu cigarro…”. Até Roberto Carlos, teria que ter cancelada a música “É proibido fumar”, porque a proibição era porque ele faria coisa muito pior: “É proibido fumar, diz o aviso que eu li. É proibido fumar, mas nem adianta o aviso olhar, pois a brasa que agora vou mandar, nem bombeiro pode apagar”.

E valeria também para poemas (sem contar romances, crônicas, contos…). Um dos mais famosos de Augusto dos Anjos começa assim: “Cuspir de um abismo em outro abismo, mandando aos céus o fumo de um cigarro…”.

Do cancelamento das músicas (e do poema) sobre cigarro, pulo pras que usam a palavra mulato ou mulata. Segundo uma versão, remete à ideia de híbrido, como a filha de jumento com égua, mula. Mas linguistas têm contestado, seria de origem árabe: viria de mowallad (nascido de pai árabe e mãe estrangeira).

Lembremos algumas músicas a serem canceladas:

“Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, que há algumas décadas muitos estrangeiros pensavam ser o Hino Nacional brasileiro, por sua beleza, começa assim: “Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro…”.

“Rancho da Goiabada”, de Aldyr Blanc e João Bosco, sobre a condição de boia-fria, diz num trecho: “É goiabada cascão com muito queijo, depois café, cigarro e um beijo de uma mulata chamada Leonor ou Dagmar…” . Aqui tem duas palavras “malditas”: cigarro e mulata.

“Mulata assanhada”, cantada por Elizeth Cardoso e Elza Soares, diz: “Ô mulata assanhada que passa com graça, fingindo inocente, tirando o sossego da gente…”. Além de cancelarem a música, provavelmente, se vivas, as próprias cantoras seriam canceladas como “traidoras” porque elas próprias eram “afrodescendentes”.

“Teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo e Irmãos Valença, realmente começa mal, é racista mesmo: “O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor, mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor”. Pena. Pois fora isso é uma música bonita, de exaltação à mulata. A letra bem que poderia ser “Mas como a cor não importa, mulata”.

Na música “Os meninos da Mangueira”, de Ataulfo Alves Jr. canta: “Um menino da Mangueira recebeu pelo Natal um pandeiro e uma cuíca, que lhe deu Papai Noel, um mulato sarará, primo-irmão de dona Zica”. Dois motivos para ser “cancelada”: sendo o próprio autor passível de ser chamado de mulato, usou essa palavra no samba e, pra piorar, sarará… Tem gente cancelando esta palavra também.

Uma vez, num livro infantil, procurando juntar num mesmo grupo crianças de todos os tipos (loiros, morenos, negros, indígenas, orientais, cadeirantes, com óculos…) descrevi um deles como de cabelo sarará. A revisora, muito competente, mas muito “politicamente correta”, insistiu: “Não pode, tem que mudar para crespo”. Fiquei surpreso. Nunca ouvi alguém falar que o fulano é sarará com tom preconceituoso. Lembrei até do Ademir da Guia… Expliquei a ela que a palavra sarará é de origem tupi, e esses povos, para denominar alguma coisa, às vezes utilizavam a imagem de algo parecido. E eles achavam esse tipo de cabelo com um amontoado de uma formiga de cor aloirada. Não viam nisso qualquer discriminação. Não adiantou. Encheu a paciência até que topei mudar, já que não interferia no sentido do texto. Mas em seguida veio com outra “exigência”: num trecho um menino diz que um outro maior judiou dele. Ela falou da origem da palavra judiar, tratar como um judeu etc.. “Tem que mudar para ‘ele me maltratou’”. Aí perdi a paciência: que menino do interior usa essa expressão, “me maltratou”? Fala judiou, sem saber da origem preconceituosa do verbo judiar, que se perdeu no tempo. Ninguém nem lembra disso. E não deixei mudar, deixando-a meio apoplética, furiosa.

Ah, falei de sarará, palavra tupi… Índio tupi? Tá aí outra palavra cancelada: índio. Caetano Veloso não poderá mais cantar que “um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante…”? É uma música de louvação ao “índio”, mas terá que substituir por indígena? Imagine ele cantando “um indígena descerá…”. Perde a graça, né?

E o Jorge Benjor terá que esquecer que “todo dia era dia de índio”, também louvando a condição de “índio”?

Certo… A palavra índio para designar os povos daqui foi dada pelo colonizador, que pensou ter chegado à Índia. Mas e daí? Usar a palavra índio para falar bem de um indígena pode levar a amaldiçoar quem falou isso? A pessoa fervorosa defensora de povos indígenas vira inimiga se usar a palavra índio?

Já contei por aí e conto de novo uma história sobre isso. O Ohi, ilustrador, e eu escrevemos uma espécie de pequeno dicionário ilustrado tupi-português e a Editora Melhoramentos topou publicar. Mas aí veio uma exigência: a Melhoramentos tinha um consultor para todos os assuntos relacionados a questões indígenas, Daniel Munduruku, e ele exigiu a mudança do título “Palavra de Índio!”. O tom desse título era de exaltação, de considerar que “índio” tem palavra, no sentido da expressão antiga de “fulano tem palavra”, quer dizer, pode-se confiar nele. Mudar o título para “Palavra de Indígena”? Que sem-graceza. Perdia totalmente a força. Acabamos mudando para “Paca, tatu, cutia… glossário ilustrado de tupi”. Aí, comprei uns livros infantis de Daniel Munduruku pra conferir e em todos ele usava a palavra índio. Fiquei puto.

Teria muita coisa pra falar ainda, mas o artigo já está muito longo. Só quero comentar mais duas coisas.

Uma é substituir a palavra índio por indígena, que muitos consideram politicamente correta. Indígena em latim significa mais ou menos “o que vive no lugar em que nasceu”. Ora… Pensando assim, um filho de casal japonês, italiano, alemão ou qualquer outro povo nascido em São Paulo poderia ser chamado de indígena aqui. Mas um xavante vindo da Ilha do Bananal ou um Ianomami vindo de Roraima não seria indígena em São Paulo, não é?

E sobre o significado preconceituoso sobre certas palavras, eu me lembro sempre de vietcong. A palavra foi criada pela CIA no início da Guerra do Vietnã, com intenção de criar preconceito contra os guerrilheiros vietnamitas. Seria, traduzindo literalmente, vietcomunistas, e achavam que os vietnamitas agiriam como uns crentes daqui que consideram a palavra comunista como demoníaca e os hostilizariam, mas os guerrilheiros lutaram tão heroicamente que vietcong passou a ter um significado altamente positivo, heroico, admirável. Já que no Brasil de hoje imitam tanto estrangeiros, não podíamos imitar um pouco os vietcongs aqui?